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Uma carta para o "Quarto Depósito"

Data de Publicação: 8 de julho de 2021 12:10:00
A história do bairro se confunde com a história do desenvolvimento de Palmyra até se tornar a Santos Dumont que conhecemos

 

 

Por Amarildo Paticcié - Colunista 

Um giro pelo tradicional bairro Quarto Depósito, com imagens e uma histórica carta-mãe. Sim e foi escrita no final do século XIX. A seguir, aqui compartilhamos o Ofício. Uma raridade:

“Estrada de Ferro Central do Brasil
Diretoria
Rio de Janeiro, 27 de maio de 1.895
N° 1061

Exma. Senhora D. Maria Felismina Ferreira Ladeira. 

Tendo o Dr. Chefe da linha desta Estrada comunicado a esta Diretoria que V. Excia. Por intermédio de seu filho, Dr. Pedro Ladeira Júnior, declarava ao engenheiro da 6º Residência ceder gratuitamente à Estrada o terreno que esta necessitar para a construção de um Depósito de máquinas, venho por isso rogar a fineza de fazer por escrito a declaração do aludido terreno, bem como assinar termo provisório por si ou por procurador, nesta Diretoria, a fim de servir de base à respectiva escritura. 
Quarto Depósito.

Saúde e fraternidade.
Januário R. de Morais Jardim.

A FAZENDA ROCINHA
 
Então entrou em cena o Dr. Pedro Ladeira Júnior. Ele era engenheiro e amigo de engenheiros da linha férrea. Ele participou da discussão de onde se instalaria o tal Quarto Depósito. E saiu de tal conversa a sugestão para se concretizar tal projeto. Não havia na época as modernas máquinas de datilografia. Portanto documentos históricos, de próprio punho, do então diretor da Ferrovia registraram o início do que viria ser motivação para também dar origem ao bairro Quarto Depósito. Por isso aqui compartilhamos essa raridade escrita em Maio de 1895. Portanto há 126 anos atrás. 

A MADRINHA DO QUARTO DEPÓSITO

Como o chefe Pedro Rodrigues Ladeira já havia falecido, coube tomar decisão a veneranda progenitora da família Ladeira. Então com espírito empreendedor e comunitário a senhora D. Maria Felismina Ferreira Ladeira autorizou a doação de três alqueires de terras da Fazenda Rocinha. Ali foi então instalado o Quarto Depósito. O empreendimento se transformaria numa competente área de manobras, abastecimento, manutenção e escola de gerações de ferroviários. E motivaria a criação de bairro de mesmo nome, ou seja, o Quarto Depósito. Viria a ser, por mais de cem anos, uma área geradora de manutenção, não somente de máquinas, mas de empregos, famílias e economia local por várias gerações... 

FERROVIAS, A ORIGEM

A história das ferrovias começou no Brasil em 1854 com a inauguração da Estrada de Ferro Mauá, inaugurada por Dom Pedro II, mas concebida graças à genialidade de Irineu Evangelista de Souza (Barão de Mauá). Com uma extensão de 14,5 quilômetros, o trecho saía da cidade do Rio de Janeiro até Petrópolis.

QUANDO OS TRILHOS AQUI CHEGARAM...

A ferrovia veio para nossa região 23 anos depois de sua inauguração no país e antes da emancipação de Palmyra. O que pra época colocou em grande destaque essa região. Sim, em 1877 aqui chegaram os trilhos, com uma linha que, na época se chamava D. Pedro II. O motivo de tal instalação era abastecer a capital do país, na época o Rio de Janeiro, com produção de laticínios. Tal investimento foi considerado empreendedor, afinal era aqui a região mais inovadora e produtiva dos latícinios de todo o país. Os investidores ao direcionar os trilhos pra Palmyra, sabiam que o retorno seria rápido e vantajoso. Vale lembrar que D. Pedro II passou por aqui e provou um queijo, que julgava ser importado, tal sua qualidade. Mas ficou surpreso e admirado ao saber que era produção da Mantiqueira, em Palmyra. Produto genuinamente nacional! 

POR QUE QUARTO DEPÓSITO?

De Palmyra à ferrovia subiu a serra da Mantiqueira pela Borda do Campo. Um dos engenheiros competentes, Henrique Dumont,  ficaria famoso mais pelo filho aqui gerado, do que pelos trilhos assentados. Com a ferrovia aumentando seus serviços e alcances, no final do século XIX havia enorme necessidade, na então Palmyra, de uma grande área para a construção de uma oficina. O futuro local já teria um nome: Quarto Depósito, porque dizem que já havia o terceiro, próximo à Palmyra... Tudo explicado, bem entendido, mas faltava o terreno. E o problema teve início de solução com a carta, acima compartilhada, para a futura madrinha do Quarto Depósito...

O SILÊNCIO DOS GALPÕES

Por todo país, nas últimas três décadas, os rumos e objetivos das ferrovias seguiram focos nem sempre alinhados com a história de sua origem. E por aqui não foi diferente. Com paralisação das históricas atividades, os galpões do Quarto Depósito chegaram a ficar muito abandonados. Nossos registros, são prova disso. Segundo alguns moradores, na verdade já caíam aos pedaços. Mas veio outra carta, que mudou esse rumo. Ela possibilitou a vinda do Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais, Campus Santos Dumont. Pra muita gente tal empreendimento não atendeu às aspirações de um retorno da atividade ferroviária. Porém veio seguir uma tradição do lugar: formação profissional. Sim, dali temos jovens da terrinha com acesso à educação de qualidade. Muitos já formados em diversas áreas técnicas, inclusive já ocupando os quadros de empresas da região e mais distantes lugares do país. Foram abertos também cursos de graduação superior e gratuitos. Realmente podem ser oportunidade pra muitos conterrâneos.

PATRIMÔNIO ABANDONADO

Lógico que quando a Exma. senhora D. Maria Felismina Ferreira Ladeira fez a doação não poderia imaginar que o modal de transporte no país reduziria a participação das ferrovias como prioridade. Em efeito cascata, o problema chegou aqui na região, paralisando o outrora vigorante e eficiente transporte de passageiros. Por que isso ocorreu? Isso pode ser tema pra outra conversa e não deve ter uma resposta única. Mas por hoje, nesse álbum, compartilhamos parte de nossos registros, dos últimos 15 anos, nas proximidades do que outrora foi a Fazenda Rocinha. 

Em pleno 2021, pudemos constatar que muitos vagões dos tempos áureos do transporte de passageiros ali ainda se encontram... Aí não tem como não imaginar vários deles restaurados e puxados pela Zezé Leone, que também se encontra parada bem perto do Quarto Depósito...

NOS TRILHOS DA ESPERANÇA

Vimos como uma carta para o Quarto Depósito fez acontecer, no final do seculo XIX. Faltou no século XX uma carta pelo Quarto Depósito, após cada decisão, décadas após décadas, sobre os rumos da economia de nossa região... 

Este álbum, tanto fotográfico como editorial, foi produzido por um filho de ferroviário... É forte a história da ferrovia em nossa região. Trilhos são feitos de aço, que costumam não resistir às mudanças. Mas o coração humano ainda segue com uma constituição mais vulnerável e precisa que seja preservada, pelo menos a história de nossas raridades...

OBS: A raridade “Carta para o Quarto Depósito” e outros dados históricos tiveram como fonte a página 47 da obra “UMA CIDADE À BEIRA DO CAMINHO NOVO”, autor: Oswaldo H. Castello Branco.

Amarildo 
paticciea@gmail.com

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